Quantos espaços podem existir no nosso tempo e quantos tempos no nosso espaço? 

Nestas páginas, foram pensados sete. Sete tempos, cada qual se misturando e abrigando outros tantos.

roda

1. ciranda
2. a cidade de uma casa só

1. ciranda

2. a cidade de uma casa só

Era como se o xapono antigo nunca tivesse existido. Diluiu-se na floresta da qual havia surgido e ao encontro de sua origem, voltou ao passado.
Agora, o sol anuncia o meio da tarde e a floresta repousa atenta, como uma mãe-pássaro com o filhote sob as asas.
Entre as penas, descansa o xapono, a aldeia Yanomami nascida da floresta.
A clareira é o espaço de segurança necessário para que as asas da mãe não sufoquem a cria, a distância ideal para que, se a árvore mais alta cair, a aldeia não seja atingida. No centro dela, onde há pouco um grupo jogava bola, o silêncio ocupa todo o pátio, de quase 80 passos de diâmetro. É o silêncio vivo da floresta, que zumbe sibilante, coaxa e cacareja.
Do perímetro da grande roda, debaixo do telhado de duas águas, respira a humanidade. As famílias daquela casa se distribuem ao longo da cidadela de madeira e palha que ajudaram a levantar. Em torno das fogueiras, sempre acesas, redes e utensílios conformam cada espaço familiar.
Durante este silêncio polifônico, as fogueiras trabalham, cozinhando queixadas recém caçados na excursão do dia.
Faz tempo que essa porção de floresta conforma tal ciranda, e o piso de terra batida começa a reclamar por respiro. As madeiras que formam a estrutura compõem um conjunto colorido de espécies variadas, escolhidas com critério: tamanho e resistência adequados a cada peça estrutural. Por isso, não é de se estranhar que os pilares continuem de pé e as vigas suportem os vãos com paciência. Mas a palha da cobertura, trançada com maestria, tem um tempo outro e suas trocas são mais frequentes.
Os ciclos da floresta não giram todos na mesma velocidade. E as expedições para coleta de novos pedaços de cobertura rodavam mais depressa que a regeneração do material. O esgotamento da palha era um dos motivos do pátio esvaziado. O xapono respirava lento, sabendo que qualquer suspiro poderia ser seu último. Alguns Yanomami sobre as redes ou sentados na terra, observavam o espaço descoberto. Outros olhares cruzavam o vazio central até alcançar fatias distantes da roda coberta.
Se a falta de material era um motivo de mudança, o excesso de memórias era outro. O acúmulo de mortes naquela comunidade desequilibrava passado e presente, e os espíritos de ontem ameaçavam o hoje dos vivos, era preciso esquecer.
No momento em que a dança do silêncio foi interrompida, todos os olhos foram atraídos ao mesmo ponto e encontraram o líder da aldeia. Da soleira de seu pedaço de casa, ele firmou a voz e transmitiu a decisão do xapono: o dia seguinte seria de mudança e na primeira luz do sol partiriam para a nova clareira. Outras vozes se cruzaram no espaço e no fim da conversa, a roda sabia como seguir.

Uma nova casa circular.
Ou será que era a mesma, apenas girando em um movimento contínuo de decomposição e renascimento?

Uma década desde que os queixadas cozinhavam no fogo. Era como se o xapono antigo nunca tivesse existido. Diluiu-se na floresta da qual havia surgido e ao encontro de sua origem, voltou ao passado.

 

Represa

Às vezes o rio percorre quilômetros sem interrupção, passa por cidades, matas, morros. Mas vez ou outra encontra uma represa.

Há muitas razões para uma represa existir.

Às vezes nasce de uma ideia de progresso, daqueles que congelam o tempo só para forçá-lo para a direção desejada.

Outras é a busca por energia. E muitas, política.

 

A única certeza é que a água para ali, independente da força, da velocidade da composição, daquele ponto não avança até que alguém decida abrir as comportas.

1. as casas esquecidas de la paz
2. (d)el alto

1. as casas esquecidas de la paz

A rua cheia de móveis. Como se o tempo tivesse parado ali, no meio da mudança.
As casas espectadoras assistem de canto a vida passar, esquecidas. Estão ainda em construção, nada se desenvolve até o fim.

Uma menina brinca no parquinho-mirante. Não sei de onde veio nem pra onde vai, parece só estar ali, e é isso.
Talvez até hoje ela esteja no meio desse giro.

De cima, a mesma paisagem se reproduz, em uma escala nova.

O fundo cor de terra ainda é pontuado por manchas de cores vibrantes, antes tecidos, anúncios e objetos, agora fachadas perdidas e telhas metálicas. Muita coisa acontecendo e ao mesmo tempo nada.

2. (d)El Alto

– E por que as casas são assim? – Perguntei pra ele, que era de lá.
Percebi que o havia acordado de algum pensamento. Me olhou sem entender.
– Assim como?
– Interminadas.
– Estão terminadas, só não estão finalizadas.
– E tem diferença?
– Por dentro elas são palácios.
– E por fora?
– Por fora estão desnudas. Com roupa são mais caras. –
Deu uma piscada num tom jocoso. Algo entre uma confissão profunda e uma piada maliciosa.
Agora eu que encarava a paisagem sem entender, um pouco constrangida.
– Impostos. – Ele achou melhor esclarecer.

Imposto. Que irônico o uso dessa palavra naquela cidade; como se o congelamento das casas no estágio de construção infinita fosse uma força “imposta”, da qual não se pode escapar, não importa quanto você esteja disposto a gastar.
No meio desse mar cor de terra, despontam, vez ou outra, fachadas muito coloridas, festivas, como se estivessem realmente vestidas (como havia sugerido meu amigo) com os tecidos andinos que desfilavam também nas ruas tumultuadas. Mas a regra imposta era tão severa, que a mais voluptuosa fachada frontal vinha sempre de braços dados a duas fachadas laterais secas, terrosas e interminadas, ou ao menos uma fachada dos fundos. Jamais um corpo vestido completamente.
Mas “por dentro são palácios”… Eu que não tivera oportunidade de espionar o interior desses corpos, achava difícil acreditar, mas, de qualquer forma, talvez o tempo corresse melhor escondido naquele lugar.
Além do mais, não podia deixar de pensar quantos tempos diferentes haveriam nessas dimensões separadas por um exterior comum congelado. No fundo, deve ser a cidade mais colorida que já vi.

vapor

Vapor é água suspensa no ar. O desmanche do que era líquido e um dia voltará a ser.
Ao mesmo tempo mudança e preservação.

É água que muitas vezes não se vê, mas ainda se sente.
Quando precipitar, será outra vez chuva, autêntica chuva.

1. como construir um shoji
2. o papel de 400 anos

1. como construir um shoji

1
corte um tronco de cedro na lua quarto minguante para que a madeira tenha maior qualidade e durabilidade

2

corte 4 peças de seção 3,5x5cm.
Duas com o comprimento igual à altura desejada e duas igual à largura

3

desenhe dentes de 1×3,5cm nas extremidades das faces de 5cm das peças de cedro

 

 

com um formão, faça o encaixe macho nas extremidades das peças menores e fêmea nas maiores

4
amasse arroz japonês cozido até transformá-lo em uma cola

5

aplique a cola de arroz nos encaixes e monte as peças formando a moldura da porta

6

corte 10 ripas de cedro de seção 1x2cm

 

 


3 ripas com comprimento igual à altura total da porta menos 5cm; e 7 com comprimento igual à largura total da porta menos 5cm

7

nas extremidades das ripas faça encaixes tipo macho de 1x1x1cm, retirando 0,5cm de dois lados da seção de 2x1cm

 

 

 

no comprimento das ripas, faça encaixes fêmea de 1x1x1cm nos pontos em que as ripas verticais e horizontais se encontrarão

8

usando a cola de arroz encaixe as ripas verticais e horizontais formando um grid

9

marque na parte interna da moldura os pontos em que o grid será encaixado e faça encaixes fêmea de 1x1x1cm

10

com a cola de arroz nos encaixes, monte o grid na moldura

11

passe a cola na lateral das ripas de um dos lados do grid e coloque o papel de arroz (washi) para completar o fechamento

2. o papel de 400 anos

Tropecei no Nishi Hongan-ji por acaso.

Andava sem rumo pela cidade que seria minha casa nos próximos meses; como quem chega devagar perto de um cachorro para que ele se acostume com seu cheiro: a deriva era uma espécie de ritual de aproximação.

Talvez pela minha falta de conhecimento sobre aquele lugar, me pareceu muito impressionante que entre um semáforo, uma máquina de refrigerantes e uma loja de departamentos, se espremesse um templo budista.

Ainda mais impressionante era o comportamento desses elementos externos dentro dele. O muro baixo que cercava os limites do templo ao mesmo tempo que enquadrava a paisagem urbana, a negava. Era uma dança, na qual esse recorte seco, ora trazia a cidade para dentro, como um quadro de natureza morta, ora afastava-a, dando a impressão de não haver nada fora de seus limites.

Sobre os espaços internos do templo não sei,

parei na porta.

Claramente a observava do avesso. As manchas de cola no fechamento de papel desenhavam o grid do ripado que tentava se esconder em vão.

Nishi Hongan-ji, recém-nascido para uma ignorante como eu, tinha 417 anos. Um papel de 400 anos me encarava e eu começava a sentir toda a fragilidade do meu corpo. As dores no pé da caminhada do dia, a secura da palma da mão, a cabeça pesada de uma cerveja a mais na noite anterior. Eu me desfazia, e o papel ali.

Não estou supondo que aquelas células de materialidade que compunham o fechamento de papel eram as mesmas células de 1602. Não eram. Mas o templo era o mesmo, a porta era a mesma, o papel era o mesmo.

Era o mesmo, pois havia sido feito a partir da mesma espécie de amoreira de papel (Broussonetia papyrifera). Com o mesmo processo de deixar a casca da amoreira em água para amolecer e depois ferver. Passando pelo mesmo cuidado manual de retirada de pequenas impurezas que restaram no material, que depois é golpeado com utensílios de madeira para que as fibras sejam separadas. O papel é o mesmo pois, assim como há 400 anos, suas folhas são produzidas a partir da sobreposição de camadas do líquido branco formado pelas fibras imersas em água. E depois de uma sequência de etapas de secagem, essas folhas foram tratadas da mesma forma e coladas na estrutura do shoji. Para cumprir a mesma função, na mesma porta, da mesma maneira que em 1602.

. . .

Dois meses depois, por sugestão de um professor da faculdade em São Paulo, viajei a Nikko. A recomendação é que eu visitasse a única cidade do Japão onde os templos ainda eram originais. Chegando lá, uma cidade como outras da ilha. Não me deparei com anúncios de “Venha visitar Nikko – a cidade com os templos mais antigos do Japão” ou “Nikko – o Japão autêntico”.

Lembrei daquele meu primeiro encontro com Nishi Hongan-ji. O templo que havia sido desmontado e montado muitas vezes. Provavelmente tivera suas peças de madeira substituídas por novas, na tradição japonesa de restauro, aonde a preservação se dá no equilíbrio entre o material e o imaterial: contanto que os conhecimentos, técnica e modo de fazer se mantivessem, não havia distinção entre uma viga recém colocada e outra, que resistia desde o começo.

Talvez se o templo fizesse parte de outro tempo-espaço, como o meu e de meu professor, ele seria acusado de farsa. Mas ali, era autêntico.

. . .

O segredo da juventude é repensar o que significa envelhecer.

O segredo de manter uma folha de papel autêntica por 400 anos, é a ideia de autenticidade.

deserto

O deserto é o melhor lugar da Terra para observar as estrelas.
Não há nuvens carregadas de água para tampar a visão.
Não há luzes vindas de baixo, como nos grandes povoamentos perto de lagos e rios.
Não há água.
Deserto é ausência.
Mas é o melhor lugar para observar estrelas.

1. cubo branco
2. dissolução

1. cubo branco

No cubo branco, as obras são dogmas religiosos.
Esse espaço, como um santuário, aparta-as das adversidades do tempo.
Afasta tudo que ameace a eternidade daquelas verdades.

 

“Quem é o Espectador, também chamado de Visitante, às vezes chamado de Observador, ocasionalmente de Percebedor? Ele não tem face, é principalmente costas. Ele se inclina e pondera; é um pouco inábil. Seu comportamento é indagativo; sua perplexidade, prudente. Ele -tenho certeza de que se trata mais de homens que de mulheres -apareceu com o modernismo, com o desaparecimento da perspectiva.”

 

2. dissolução

Voltei ao museu.
Mesmo com 3.700m2 a mais, encontrei-o exatamente como o havia deixado: sem mim.

 

Sala após sala, caminho nesse espaço alheio ao mundo. Sem sombra, sem escala, sem perspectiva, sem tempo.

Perdido entre dadás, cubistas e abstratos,

passo por hidrantes eternizados e cinzeiros absolutos.

 

A falta de referencial (a não ser as obras inquestionáveis) me desmaterializa.

 

Não falo,
não como,
não danço.

Não dou risada,
não sento, deito, rolo.

Não tenho nenhuma obrigação com aquele corpo que me suportava, não tenho corpo.

 

 

Só eles o tem:

 

vagam
correm,
dançam.

comem,
gritam e
lambem.

 

O irônico retorno do museu de arte moderna à pintura gótica. Chapado, dourado absoluto, negando todo tempo e espaço.

 

canal

O rio canalizado nasce de uma vontade humana, de uma imposição.
Quando retificado, perde seus meandros e devaneios, é só certeza.
Frequentemente, inunda apagando o que há em volta.

1. perspectiva e projeto
2. a reta

1. perspectiva e projeto

O pensamento humanístico, do qual a arte é parte essencial, modifica profundamente as concepções do espaço e do tempo.

Talvez, como sugira Argan, o espaço-tempo tenha nascido no pensamento ocidental com a perspectiva. Antes, quadros medievais apresentavam figuras chapadas sobre um fundo dourado absoluto. Sem referencial de profundidade, ou de luz; portanto sem espaço ou tempo. As motivações da vida eram outras, os dogmas, inquestionáveis.

Com a perspectiva, surge a mobilidade. As imagens passam a inserir-se em um lugar e em um tempo. Essa revolução do Quatrocentos florentino expressa o pensamento e vontade humana e pode ser considerada um dos pilares de fundação da Idade Moderna. As noções de espaço-tempo ocidentais europeias são filhas da razão. Nasceram com direção e sentido, e carregam a verdade.

Assim como as obras de artistas florentinos como Brunelleschi e Alberti, o Pavilhão de Barcelona, de Mies van der Rohe, exala valores intelectuais e morais pelos poros de seu mármore branco e geométrico em perfeitas proporções. É o traço do arquiteto. A pena que desenha o melhor jeito de viver. Espaços-monumentos, símbolos da razão. Feitos de pedra, para gravar no tempo os princípios modernos.

 

Donatello, escultor do Quatrocentos, luta contra o tempo indomado. Crava nas esculturas a luz e a sombra que deseja, controlando o movimento de suas obras. Pois para ele “movimento não é o movimento do cosmo, da luz ou do vento, mas o ato de uma vontade humana”.

 

O arquiteto mestre, assim como Donatello, é o responsável pelo desenho da luz nos espaços. As sombras não são projetadas pelo presente, sob o movimento da natureza; mas pelo passado, por um ato consciente do homem.

2. a reta

Ali se sentou o filho do arquiteto. Foi o primeiro. Ereto, em prumo, pra foto. É assim o jeito certo de sentar!
Depois, uma família: avô, pai e filhos. A mãe não se sentava.
A avó sentava certo, mas pouco. O pai sentava sempre copiando a pose da foto, era homem moderno. Os filhos sentavam em pé, ou deitados, ou comendo biscoitos.
Por dois anos
não se sentou ninguém.
E então: os gatos.
Depois de 10 anos o velho morreu e o novo mandou embora os animais. Se sentava ele.
Casou. Adotou trigêmeos que pintaram o concreto de verde laranja marrom.
O laranja ficou mais tempo e vendeu a casa para um casal de amigos.
Escolheram um vaso para sentar ali. O vaso quebrou e a casa foi vendida mais quatro ou cinco vezes.
Até que a casa quebrou. Agora sentam pedaços de forro e telhas partidas.
Sentam errado.
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Queda

O momento da queda é imprevisível.

Os motivos podem ser vários e tortuosos, mas a ação é sempre violenta.

Naquele espaço-tempo é impossível saber se a água corre para frente ou para trás. Não há tempo de escolher direções.

Águas recém caídas se chocam com águas velhas e em cambalhotas se embolam no choque eterno.

A queda é energia. Compressão e sobreposição.

1. nascimento e morte do hotel imperial
2. apagamento e sobreposição

1. nascimento e morte do hotel imperial

A tradição de casamentos no Japão segue, como em qualquer outro lugar, uma série de ritos simbólicos. No ritual xintoísta, por exemplo, o casal passa por um momento de purificação chamado San-san Kudo bebendo saquê de 3 cálices: o céu, a Terra e o Homem; que simbolizam o novo vínculo familiar.
No ano de 1923, as cerimônias ocorriam em templos budistas ou santuários xintoístas, mas nunca em hotéis como o Hotel Imperial, de Frank Lloyd Wright.

Na manhã do dia 1o de setembro de 1923, os primeiros convidados da inauguração oficial do Imperial começavam a despontar nos suntuosos salões do hotel.
No caminho, muitos cruzaram com animadas crianças saindo da escola após seu primeiro dia de aula pós férias de verão.
Provavelmente se dirigiam a suas casas aonde, naquele mesmo momento, suas mães e avós preparavam o almoço.

Mas para a região de Kanto, este foi o dia de muitos preparativos e poucas conclusões.
11:58, no dia de seu nascimento, o Hotel Imperial chacoalhou sob um tremor de magnitude 7.9 na escala Richter. E os 10 minutos de duração foram suficientes para devastar as cidades de Tóquio, Chiba, Kanagawa e Shizuoka.

Talvez os fogões que nunca chegaram a terminar o almoço tenham sido responsáveis pelos incêndios.
Durante 3 dias o fogo se espalhou com a ventania e formou redemoinhos ardentes.
Mas o hotel recém-nascido sobreviveu aos tremores, ao fogo e ao Tsunami que o sucedeu.

Com a destruição da maior parte de Tóquio veio o vazio, a possibilidade de uma nova cidade.
Os serviços públicos de transporte foram reorganizados e novos sistemas de resistência sísmica foram implantados.

De 1923 a 1968 o hotel viveu. Além de hospedar japoneses e estrangeiros inaugurou uma nova tradição para as cerimonias de casamento, suprindo a demanda que a cidade devastada deixou. E casar em salões de hotéis já não era mais tão estranho.

A morte veio em 1968. E com 45 anos, o velho novo hotel foi devastado pelo desejo de levantar ali um imponente edifício vertical.

2. apagamento e sobreposição

carimbo de um uso só:
antigo hotel, novo museu

iojhddedtjpok;ijygtrdegiji

iojhddedtjpok;ijygtrdegiji

iojhddedtjpok;ijygtrdegiji

 

ilha

Ilha é a pausa da água.
O espaço entre águas.
É o momento em que existe a possibilidade de a água cobrir o banco de areia, ou daquele ponto seco ficar preservado e criar novas relações.
Um pássaro na ilha está em transição. Aquele suspiro no meio do voo gera novas opções de caminho, novas direções.

 

1. entre
2. o nada ou o vazio?

 

1. entre

2. o nada ou o vazio?

Ela não conseguia decidir o que estava melhor.
Intercalava um camarão ao molho agridoce com gohan, depois um pouco de cogumelos.
E então, havia as pausas. Os alimentos encontravam outras áreas da língua e explodiam em novas sensações. Mas o sabor mais forte era o da expectativa.
O que virá no próximo bocado? Um pouco mais da sopa quente com missô e ovo? Um pedaço da manga para surpreender o paladar?
Deliciava-se. Pulando de uma tigelinha à outra como uma dança. Solava.
Um a um, os seis pequenos recipientes foram se esvaziando até que havia só ela, encarando a bandeja vazia.
Seu peito se encheu de solidão. A falta da comida a lembrou da falta da mãe. Fechou os olhos, escondendo a emoção pra si. O que mais queria naquele momento era encontrar a mãe ao reabri-los.
Mas era Akira-san, o senhor dono do restaurante. Conhecia-o desde pequena, a mãe sempre a levava para almoçar no EAT quando visitavam Nikko.

 

– Kumiko-chan, o que é melhor, o vazio ou o nada?

Ficou vermelha. Ele estava ouvindo seus pensamentos o tempo todo?

– Não sei Akira-san, o que é melhor?
– A minha resposta eu já tenho, pergunte a si qual é a sua.

Por alguns minutos os dois ficaram em silêncio, sentados em uma das 3 mesinhas do restaurante apertado. Ouvia-se apenas o barulho do casal recém-chegado decidindo entre os famosos guiozas do restaurante ou algo diferente.

– Acho que o vazio.
– Por quê, Kumiko-chan?

– No vazio há sempre a possibilidade. É o tempo-espaço em que algo bom pode acontecer.

 

roda

1. ciranda
2. a cidade de uma casa só

1. ciranda

2. a cidade de uma casa só

Era como se o xapono antigo nunca tivesse existido. Diluiu-se na floresta da qual havia surgido e ao encontro de sua origem, voltou ao passado.
Agora, o sol anuncia o meio da tarde e a floresta repousa atenta, como uma mãe-pássaro com o filhote sob as asas.
Entre as penas, descansa o xapono, a aldeia Yanomami nascida da floresta.
A clareira é o espaço de segurança necessário para que as asas da mãe não sufoquem a cria, a distância ideal para que, se a árvore mais alta cair, a aldeia não seja atingida. No centro dela, onde há pouco um grupo jogava bola, o silêncio ocupa todo o pátio, de quase 80 passos de diâmetro. É o silêncio vivo da floresta, que zumbe sibilante, coaxa e cacareja.
Do perímetro da grande roda, debaixo do telhado de duas águas, respira a humanidade. As famílias daquela casa se distribuem ao longo da cidadela de madeira e palha que ajudaram a levantar. Em torno das fogueiras, sempre acesas, redes e utensílios conformam cada espaço familiar.
Durante este silêncio polifônico, as fogueiras trabalham, cozinhando queixadas recém caçados na excursão do dia.
Faz tempo que essa porção de floresta conforma tal ciranda, e o piso de terra batida começa a reclamar por respiro. As madeiras que formam a estrutura compõem um conjunto colorido de espécies variadas, escolhidas com critério: tamanho e resistência adequados a cada peça estrutural. Por isso, não é de se estranhar que os pilares continuem de pé e as vigas suportem os vãos com paciência. Mas a palha da cobertura, trançada com maestria, tem um tempo outro e suas trocas são mais frequentes.
Os ciclos da floresta não giram todos na mesma velocidade. E as expedições para coleta de novos pedaços de cobertura rodavam mais depressa que a regeneração do material. O esgotamento da palha era um dos motivos do pátio esvaziado. O xapono respirava lento, sabendo que qualquer suspiro poderia ser seu último. Alguns Yanomami sobre as redes ou sentados na terra, observavam o espaço descoberto. Outros olhares cruzavam o vazio central até alcançar fatias distantes da roda coberta.
Se a falta de material era um motivo de mudança, o excesso de memórias era outro. O acúmulo de mortes naquela comunidade desequilibrava passado e presente, e os espíritos de ontem ameaçavam o hoje dos vivos, era preciso esquecer.
No momento em que a dança do silêncio foi interrompida, todos os olhos foram atraídos ao mesmo ponto e encontraram o líder da aldeia. Da soleira de seu pedaço de casa, ele firmou a voz e transmitiu a decisão do xapono: o dia seguinte seria de mudança e na primeira luz do sol partiriam para a nova clareira. Outras vozes se cruzaram no espaço e no fim da conversa, a roda sabia como seguir.

Uma nova casa circular.
Ou será que era a mesma, apenas girando em um movimento contínuo de decomposição e renascimento?

Uma década desde que os queixadas cozinhavam no fogo. Era como se o xapono antigo nunca tivesse existido. Diluiu-se na floresta da qual havia surgido e ao encontro de sua origem, voltou ao passado.